A recente emissão do programa Show do Fred, transmitido na noite de segunda-feira, 22 de julho de 2025, trouxe à tona um tema sensível mas cada vez mais presente no meio artístico moçambicano: as condições de trabalho, o respeito mútuo e a valorização dos profissionais da cultura sobretudo daqueles que atuam longe dos grandes centros urbanos.
Em causa estão declarações do cantor Ziqo, a propósito de uma alegada recusa por parte da Google Produções uma agência sediada na cidade de Lichinga, província do Niassa em permitir a participação dos seus dançarinos Parte Pedra e Amuenhe no videoclipe da música “Xipoko”, que mistura ritmos urbanos com a expressão cultural Kadoda, enraizada no norte do país.
O comunicado e a resposta institucional
Na manhã desta quarta-feira, 23 de julho, a Google Produções divulgou um comunicado oficial esclarecendo a sua versão dos acontecimentos. No documento, a produtora defende que não houve qualquer acordo formal entre as partes, uma vez que as condições logísticas e de segurança propostas pelo artista não garantiam o bem-estar dos dançarinos, incluindo menores de idade. A agência alegou que as ofertas feitas por Ziqo não respeitavam os seus princípios profissionais e éticos, mencionando a ausência de passagens aéreas, compensações justas e garantias mínimas de dignidade.
Encomende agora e saboreie o melhor da Quinta NICY!
Último stock de pato na Quinta NICY!
A resposta pública, escrita de forma firme mas comedida, evita ataques pessoais e reforça o papel da Google Produções como agente de promoção responsável de talentos da região norte, salientando os desafios enfrentados por jovens artistas fora dos grandes palcos nacionais.
Temas para debate e reflexão
A situação exposta lança luz sobre uma série de questões relevantes para o presente e futuro do setor cultural moçambicano:
- Centralização cultural e logística desigual: A distância entre províncias como o Niassa e centros como Maputo coloca desafios logísticos e financeiros consideráveis para quem quer integrar artistas regionais em projetos nacionais.
- Valorização profissional dos dançarinos e artistas locais: Muitos jovens talentos, sobretudo fora das grandes cidades, enfrentam propostas de trabalho que não garantem condições dignas. A pergunta que se levanta é: até que ponto o “amor à cultura” pode ou deve justificar a ausência de compensação financeira?
- Formalização das parcerias artísticas: O caso reforça a importância de contratos formais e acordos claros, evitando mal-entendidos e acusações públicas que afetam a imagem de ambas as partes envolvidas.
- Relação entre artistas consagrados e produtores locais: Qual deve ser o papel de artistas com visibilidade nacional na inclusão e capacitação de jovens produtores e dançarinos de regiões menos representadas? Há espaço para um modelo mais colaborativo e menos hierárquico?
- O Kadoda como identidade cultural: O comunicado reforça que Kadoda é cena, e que a cultura do Niassa deve ser reconhecida e valorizada sem apropriações ou distorções. Isso levanta o debate sobre a representação autêntica das expressões culturais moçambicanas no cenário mediático.
Uma oportunidade de crescimento coletivo
O episódio, embora tenso, pode servir como ponto de partida para um diálogo mais profundo sobre a profissionalização do setor cultural em Moçambique. À medida que estilos como o pandza, o Kadoda e outras fusões ganham espaço nas rádios e plataformas digitais, é essencial que o respeito, a dignidade e a ética acompanhem esse crescimento.
A Google Produções terminou o comunicado com uma nota positiva, felicitando Ziqo pela qualidade do videoclipe e reconhecendo o papel de outros dançarinos do Niassa no projeto. A mensagem final foi clara: “Ser do Niassa não é sinónimo de ser tolo. Conhecemos o nosso valor e a dignidade.”
Talvez esta seja, acima de tudo, uma chamada de atenção para o país reconhecer todo o seu território como palco, e todos os seus artistas como protagonistas.






















