“Vamos lá debater família! Terreno ou Ractis?” a pergunta simples e provocadora lançada pelo artista moçambicano Sidof Davi nas redes sociais transformou-se rapidamente num verdadeiro fórum nacional. A juventude respondeu em peso, dividindo opiniões entre a urgência de mobilidade e a visão de investimento de longo prazo. Mas, afinal, o que é mais importante: comprar um carro ou garantir um pedaço de terra?
A realidade do dia a dia versus o sonho da estabilidade
Num país como Moçambique, ainda em vias de desenvolvimento, onde os desafios de mobilidade urbana são reais e o acesso à habitação própria continua limitado para muitos, a questão vai além de mera preferência pessoal é um espelho das condições sociais e económicas enfrentadas pela juventude.
De um lado, os que defendem o carro (Ractis) como prioridade apontam a necessidade de mobilidade imediata, conforto no deslocamento e, não menos importante, o estatuto social. “Ractis primeiro, não se pode ir ver terreno a pé”, escreveu um jovem internauta, representando a mentalidade prática de muitos.
Outro seguiu na mesma linha:
“Lembre-te, cobradores nas primeiras e últimas horas do dia humilham”, fazendo alusão às dificuldades enfrentadas no transporte público, sobretudo em horários críticos.
Do outro lado, o investimento seguro
Por outro lado, há quem defenda com firmeza que o terreno vem primeiro, por ser um activo que valoriza com o tempo. Para esses jovens, ter onde morar, plantar ou construir é uma segurança real num cenário onde o arrendamento pesa no orçamento familiar.
“Terreno e depois carro, pra poder ir com facilidade ao terreno”, argumentou uma jovem, defendendo uma lógica sequencial e sustentável.
Outro comentário trouxe uma explicação mais profunda:
“Existem dois tipos de bens: activo (que mete dinheiro) e passivo (que gasta dinheiro). Se for para comprar terreno, melhor ainda: o dinheiro resta. E podes já comprar uns blocos e meter água no tal terreno.”
E há ainda os que tentam relativizar:
“Eu já tenho terreno e casa, mas ninguém ri de mim por ir a pé ou de txopela.”
A escolha entre necessidade e visão
Este debate é, na verdade, sobre prioridades num contexto de recursos limitados. Um carro resolve o agora, facilita deslocações para o trabalho, estudos ou negócios. Um terreno é um passo para a estabilidade futura, uma âncora contra a incerteza.
Ambos podem ser válidos, dependendo da realidade de cada jovem. Contudo, em termos de sustentabilidade financeira, a visão de que um terreno é um activo e um carro, um passivo, começa a ganhar força entre uma juventude cada vez mais consciente do valor de construir património.
Mais que uma pergunta um espelho social
Sidof Davi não lançou apenas uma pergunta: criou uma oportunidade para a juventude pensar sobre o futuro, prioridades e a forma como o sucesso é medido na sociedade. Entre a pressão estética de “ter carro” e a realidade invisível de quem vive sem terreno, o debate revela as tensões de uma geração em busca de dignidade, identidade e estabilidade num país ainda marcado por desigualdades.
No fim das contas, talvez a pergunta certa não seja “Ractis ou terreno?”, mas sim “O que me aproxima mais dos meus objectivos com os recursos que tenho agora?”
E essa resposta, em Moçambique, pode ser tão diversa quanto as vidas que a constroem.





















